
"Eu não queria muito mais. Eu não queria nada."
Desejei outras sobrancelhas e então comecei o trabalho, pintar um novo conjunto de pêlos no rosto, talvez a inspiração provenha de um monstro com sorriso diabólico e coração podre, não sinto dor alguma, aliás, enquanto arranco e redesenho consigo até sorrir, penso então que eu meu desejo-analfabeto poderia ser menos extravagante, ainda assim não esqueço que independente das esquisitices que minha mente sociopata esculpe no meu corpo: você sempre dirá que eu sou uma flor vermelha e eu contestarei com as mãos vertendo suor, mas não terei coragem de ir além e concordarei que brotei no seu peito e você me regou até eu aprender a ler histórias e cortar os espinhos. Eu sei que nós fugiremos, gostaria que fosse num dia bonito em ambos extremos, notei que o sul nunca foi meu e o norte é nada mais do que um castigo que desencadeia uma raiva quase espetacular em sua garganta. Fumaremos tanto nos primeiros dias, penso até que nosso gasto em nicotina superará o valor investido em alimentos, então andaremos muito e eu pedirei para você comprar água porque eu preciso ser regada e seus olhos já estão tão cansados de derramar o mais doce dos líquidos sobre minhas pétalas machucadas, precisamos cicatrizar. Você é uma flor rara e cada um dos seus defeitos a torna mais azul e linda e eu tenho vontade de cobrir um sofá com os espinhos que você não tem; passar minhas mãos sempre molhadas nas suas pétalas; eu quero a sua essência de flor-azul nos meus dedos e no meu cabelo, e eu vou tomar todos os banhos de chuva que a grande cidade nos proporcionar, seu cheiro estará sempre lá. Minhas palavras ficam ecoando e eu pareço um pouco bêbada, porém os remédios atestam que nenhuma gota de álcool está presente em minha corrente sanguínea, enquanto eu pareço você é, fico assustada percebendo que vendi minhas pernas para custear a grande viagem e sinto o terror consumir o que restou, você segura minhas mãos e me coloca no colo, conta carneirinhos num céu tão puro e embala os meus restos, queria não manchar suas vestes sempre brancas e bonitas, queria ter pernas e não correr. Iremos nos acordar, porque as flores têm um relógio despertador que alerta para a efemeridade de suas vidas, então permanecem sempre acordadas, imitam nossa insônia incontrolável e morrem numa letargia quase pacifica. A cidade está tão suja quanto minhas unhas roídas e mal pintadas, resolvo dizer em voz baixa que devemos parar e observar o parque, lembro rapidamente que minhas pernas foram vendidas e que mesmo na época em que as possuía assustava pessoas com imensa facilidade, fixo-me na roda gigante e sugiro que brinquemos nela, nossos corações sentam no mesmo banquinho e dão mil voltas sem emitir nenhum som, arranco algumas moedas de um bolso já esquecido, entupimos nossos estômagos vazios e debilitados com besteiras multicoloridas que só fazem sentido em parques,você segura meus braços emporcalhados e escreve no ar qualquer coisa como: “e eu olho pra baixo, vejo todas aquelas pessoas lambuzadas de maçã-do-amor. E eu te dou o meu coração ali mesmo, no topo. Pra que não chores e nem sangres. Porque és amada.”, tento não chorar e continuar, engulo então a água que poderia desperdiçar emocionando-me e seguimos nosso caminho torto pela cidade-suja-que-extermina-flores, refletimos certo equilíbrio em vidros imundos. Eu não tenho mais medo de continuar, acordo de um sono estranho onde o único colchão é um piso que poderia parecer gelado, mas eu tenho uma flor que ilumina os meus dias e carrega na ponta dos dedos uma estação de viagens particular, eu tenho uma flor e ela contenta-se em regar um arbusto não-decorativo, meu sangue é seiva bruta e o seu é açucarado, olhamos as estrelas e juntas comentamos nossa infantilidade que não se disfarça nem num abraço, encontro os seus pedaços, colo em mim e faço-me um moisaco, pedacinhos-de-vidro-pedacinhos-de-flor-pedacinhos-de-nós, amargo-doce-sonho-riso-pranto-sem-pernas-com-aconchego, nenhum vento nos derrubará, ao menos não enquanto nossos dedos estiverem entrelaçados num sonho.
7 comentários:
"O amor, ah o amor: eu quero porque quero da vida."
"Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não."
Manuel Bandeira
Vou ser a tua rosa, e te cobrir de espinhos, meu prazer é ver teu sangue, e assim, misturar com o meu, e vamos ser um sangue só.
beijo Julieta :*
Eu tenho medo de desatar os nós, e ao mesmo tempo gostaria de me livrar da sensação incômoda de andar sobre eles, meus pés doem quando piso nessas calosidades invisíveis.
Mas o vazio que poderá corroer meu corpo por dentro, me traz desespero, e eu não sei se aguentaria essa dor. Quero ser rosa, com espinhos e sem cor.
:*
sou eu ali como outra pessoa nunca estaria. chega senti tudo aquilo de novo. meu deus.
As flores de paredes são engraçadas, eu falo daquelas que ficam perto das paredes... é que quando você tem que pintar aquelas paredes, você tem que ter o cuidado de cobrir as flores,e é meio agonizante saber que a beleza das flores vai ser sufocada por um longo tempo por um pano, para que assim elas possam sobreviver. É o necessário sendo feito para que se possa existir vida.
...
-Tudo se adapta, as flores e as palavras. Assim vi que o jardim é hoje de concreto, vidro e asfalto, e o papel é de cristal líquido. Mas o sentimento de antes é o mesmo do de depois. Mil anos podem passar, mas o setir das pessoas não se abafa nesta estufa de monóxido de carbono...
Tuas palavras me pareceram muito bem adaptadas....
gostei muito desse sítio de sentires. eu também me permito a dor. a dialógica..
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