segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Rir ou morrer.


"Honey, help me out of this mess
I'm a stranger to myself
But don't reach for me, I'm too far away
I don't want to talk 'cause there's nothing left to say"

Eu queria que você me visse agora: estou usando uma blusa listrada de cores sujas, uma calça desbotada e minhas meias de desenho animado. Eu queria que você estivesse vivo o bastante para me ligar num dia desses e dizer: “eu sei que o mundo tá acabado e que todos os círculos se unem em algum lugar, mas o seu edredom xadrez ainda é uma coisa tão bonita.”, eu sei que você ainda não sabe que eu tenho um cobertor xadrez e que talvez nunca descubra a importância dele e muito menos atente para as noites-dias-tardes de lágrimas-cabelos-molhados-sono-forjado. Eu queria que você acordasse e me puxasse para fora da confusão, porque eu estou cansada de permanecer tão dispersa, estou exausta de tanto desejar e não conseguir, e agora eu minto: digo que eu gosto de não conseguir, é bonito mentir e é só o que eu consigo fazer, eu invento que você vai vir me ver e que me arrastará para outro lado meu que eu ainda não consegui enxergar, gosto tanto. Eu digo que vou deitar, afinal o sono é um bom lugar para se imaginar toda a ternura que eu aprisionei dançando músicas infantis. Eu falo que vou e quero ir, eu quero estar num lugar onde você queira me resgatar e possa dizer que sou uma pessoa boa e tenho alguma relevância, quero ir para um planeta amarelo e cheio dos seus sorrisos que devem ser muito estranhos, pois o meu coração só consegue ler um homem sério que aprecia as distâncias. Lembro todos os dias de quando você escreveu a palavra “saudade”, é como se um muro na minha cidade invisível tivesse sido manchado com a sua voz e para além, eu sei que você não sente mais saudade nenhuma e sei que eu não sei fazer nada além de sentir e já sequei a ponto de não chorar e chorei até desidratar, eu não quero desistir. Os médicos falam em cisão e coisas que não podem ser curadas, eu prefiro imaginar que a minha semi-presença colore um pouco do seu dia, eu simplesmente digo que se eu tivesse sangue pintaria de vermelho todas as suas agonias e a partir daí nos procuraríamos juntos: numerologia, astrologia, o peso das cores, a leveza de não buscar, proporíamos juntos qualquer coisa que já foi banalizada. Eu estou cansada e amargurada demais, acredito que até um pouco feia e velha em excesso, mas você sabe que eu sempre amei o exagero, sempre amei você com todo exagero de gradações, sonhos e toques que eu pude criar, sempre amei você e agora estou confusa, eu preciso de um sentido para as roupas-de-menina-velha-e-feia, e eu sei que você não está disposto e sinto medo, então eu vou chorar e deixarei você gritar ao mundo que eu sou burra e poluir o ar bonito do futuro com o meu mau gosto, consentirei para que você se sinta melhor e eu enfim consiga apenas observar, tenho diminuído meu ego, espero que ele caiba nas cartas que não enviarei e esteja datado a ponto de pertencer unicamente às canções que você odeia, pas-sado. A extensão das noites insones embaladas pelos sonhos impossíveis que eu desenhei nas linhas da sua mão esquerda não tem época para acabar, enfim estou brincando de gostar de sofrer. Não estarei em lugar algum, porém até no canto mais imundo do inferno eu enxergaria seu gesto, caso você ainda fosse capaz de me chamar, eu atenderia, eu esperaria, exatamente como uma telefonista de hospital, eu terei todos os dias a partir de anteontem: roer unhas, não secar os cabelos e repetir sua voz até que ela se cristalize, assim como as correntes enferrujadas que prendi na ponta de cada um dos meus dedos, eu direi que concebi uma matilha abstrata para latir aqui no meu pandemônio e fazer você perceber que eu não tenho mais pernas, porém os braços continuam a sua espera, apesar da gravidade.

6 comentários:

Ana Pérola Veloso disse...

Tão dolorido, mas tão bonito os braços ocorrendo o abraço as mãos esticadas para as.
Sabe do que sinto falta AGORA? Do último telefonema antes de cessar meus olhos, antes de levitar meu corpo para um sonho sempre de encontro à.

PS: foi inexplicável ler isso ao som da música que me mandou!

Anônimo disse...

Eu minto para mim mesma, se é que isso é possível, dizendo que não sinto nenhuma falta, que não preciso mais, mas o que eu mais desejo quando a noite vem é aquele abraço apertado, aquele cheiro de perfume-e-cigarro que eu gosto tanto e aquela voz me dizendo "que saudade de você".
Se eu pudesse eu tiraria toda a sua angústia e colocaria você envolta em uma bolha de sabão, não existe coisa mais mágica do que isso, e você enxergaria todo o lado de fora e veria que é tudo brincadeira.

Eu não sei como, nem porque, mas cada vez que eu leio você, eu acabo sentindo um afeto tão grande, tão grande..

=*

nina rizzi disse...

se-ria morrer... que seus braços se alarguem, pequena ;)

Fênix disse...

É tão dolorido e pesado ver que o centro das nossas atenções, não prende nenhuma atenção a nossas palavras. Caiu no esquecimento ou apenas deixou de amar.

Thiago Lemos disse...

Seus escritos... Coisas finas!

raai. disse...

eu sinto falta de tanta coisa, estar com os meus braços abertos pe consequencia de uma certa idiotice minha, que me faz envolver alguem sem saber nem quem é, de onde veio ou se vai me apunhalar pelas costas :\

quando eu crescer quero escrever bem que nem voce :D
:*