"E antes de se erguer, chupou os
dedos sujos de sangue, que lhe deixavam na boca um gosto amargo da
vida."

A voz que grita em mim é outra. Não sou mais a nuvem poeirenta que precisa essencialmente fracassar em todas as tentativas de tocar seu rosto gelado, não sou mais. Então eu a deixo tropeçar e colorir a ausência dentro das minhas meias, ela diz pra eu avisar que a vida não é uma brincadeira e quem sim, nós estamos aqui para fazer rir quem nunca envia fotografias, porque é um pecado representar o infinito com o coração vazio. Eu sou o seu espaço em preto e branco sem gradações de cinza, espaço que reduz-se a um corpo exíguo e que morre no pensamento de suas mãos distantes, ontem enxergava você desfocado, agora percebo que cada pedaço do meu desejo analfabeto desfalece na saliva dos cães que ladram e mordem meus dedos. A saudade tem cheiro do triângulo azul que as enfermeiras desenharam em cada uma das minhas veias, inventaram uma forma de diferenciar minha existência sensível, afinal eu era toda uma grande virose e não podia ser confundida com você, entenda. Eu não poderia ser confundida com você, porque seu desejo sorria e conversava com meu desespero, o seu anseio assumia que você tinha se infectado somente por vontade de dar um passeio e conhecer as camas desconfortáveis. Os meninos quicavam a bola e minha cabeça parecia doer, o moço do quarto ao lado falava sozinho e pedia perdão por estar traindo o próprio reflexo, impossível não rir histericamente, e no meio da minha loucura uma lágrima resolve cair. Você não estava enganado: sou apenas uma menina doente e não há cura para quem aspira solidão demais, perdi todos os meus amigos e conto mentiras para semi-conhecidos, sinto nojo do suor que escorre lentamente e vai marcando os lugares em que você esteve, sinto nojo das suas roupas, sinto nojo das suas outras-únicas moças e minha vontade é um grande absurdo: sorrir para você com meus dentes verdes e quebrados, exibindo minhas cicatrizes tão lindas, porque a melhor coisa – antes, durante e após qualquer tortura redentora – é imaginar o seu abraço comum e masculino. Pretendo arrebentar todas as lâmpadas que ficam presas aos postes na sua cidade, você passeará no escuro com seu lindo carro e atropelará três idosas de noventa e cinco anos, eu estarei sentada num banco e como tudo será penumbra seus olhos não vão notar minha presença ofegante, fingirei que não me importo e delicadamente discarei para polícia e contarei que sim, você violou todas as regras : apagou as luzes e matou três senhorinhas que caminhavam procurando patos, então o carro com os agentes da lei chegará e tratará de leva-lo preso - em flagrante- e eu permanecerei em silêncio, simplesmente observando suas mãos bonitas, você nunca saberá o quanto eu te quis e até que ponto, talvez as paredes da sua cela acabem mofando e então você contrairá uma gripe e começará a tossir, eu estarei preparada para correr e tentar adquirir sua doença, então ninguém poderá dizer que é só sua, porque eu quero é a indisposição compartilhada, os jornais anunciarão a nossa enfermidade e eu ficarei feliz por saber que meu organismo está tão debilitado quanto o seu e continuarei sorrindo, o maior e mais verde de todos os sorrisos do mundo, então o fotógrafo perguntará qual foto eu vou querer na minha lápide e eu vou pedir para que ele faça um retrato em preto e branco extremo da sua flor preferida, e você pensará em dizer que eu não sou uma flor e nunca serei sua preferida, mas lembrará que não há como evitar a morte nem as idealizações, então mentirá e dirá que gosta de hibiscos, serei assim diante das meninas doentes e que aspiram solidão a mais realizada de todos, afinal terei seu hibisco indiferente em minha sepultura.
6 comentários:
Você tem dom para contos.
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Acho que sim.
Eu queria ser aquela doença, eu queria poder destruir ele delicada e lentamente, queria ter o frio nos olhos na última hora, queria poder ignorar aquilo que nunca passa.
:**
Você tem dom para contos.
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Acho que sim.
eu gosto de hibiscos!
eu quero que grite outra voz em mim
;* seu texto é lindo *-*
A Fer me copiou.
E só pra fixar.
(3)
Você tem dom para contos, acho que sim.
E eu era apenas.
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Findastes falando dos hibiscos. Hoje vi tantos. A cidade esta repleta. Impossível não lembrar você! Como se eu não quisesse. Imagina! Óbvio que está coisa inexplicável-cheia-de-detalhes como os hibiscos me lembrarão você: pessoa-toda-linda-mesmo-que-se-sinta-o-oposto. Mas eu não.
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