sexta-feira, 29 de agosto de 2008

"...e a minha ausência não terá nenhuma importância."

"Sopra aqui no meu ouvido que eu sou melhor
do que as outras sopra um sopro de sempre
sua vai sopra que eu vou à loucura sopra e
supre essa carência soprando em cima da
ardência."



Penso em enumerar todas as coisas que imagino você fazendo. Um jeito que é só e simplesmente seu de dizer olá e até o instante em que seus olhos observam o espaço que a nicotina abre no ambiente. Permaneço estática, durmo dentro da minha bolha de amarguras e rejeições, deve ser assim, penso no exato segundo em que noto o quão ásperas e magras estão minhas mãos. Entendo que minha imagem não constrói nada de agradável no seu dia e sei que coisas deste tipo não são passiveis de permissão, acontece. É inevitável e por um segundo deixo que o vácuo tome o controle, incontrolável. Sento na calçada que cerca o terreno e deixa para a grama uma localização central, encontro pequenas pedrinhas sujas e perdidas, fumo um cigarro que poderia bem ser nomeado como pecaminoso. Insisto em inventar um novo motivo para sorrir, meu esquálido corpo mantém-se imóvel dentro de um pátio cheio de verde-flores-e-árvores, a mente percorre, insiste, invade e o coração tenta ficar inflado, poderia ser sangue, mas é ar, meu coração tenta não murchar e imagino que ele poderia transformar-se num balão, um balão vermelho e impopular flutuando num céu nublado, nada acontece e derramo algumas cinzas. Noto então que é na recordação da sua voz que meus dentes aparecem, uma voz que é só sua e por ser assim não permite reproduções, e é mais do que graciosa, sua voz inunda todo o meu tempo dispendioso. Lidar comigo é desagradável, penso que seja exatamente como cortar os dedos no ralador enquanto se prepara uma salada de cenoura, angustiante. Você não pede perdão e acaba levando minha histéria a um nível nulo. Eu poderia dizer que ainda sonho e fecho os olhos como numa prece insana todo tempo, desnecessário comentar. O choro tornou-se uma impossibilidade e devido a minha experiência em suportar coisas inatingíveis, posso dizer que ele não pretende retornar a lista das atividades rotineiras tão cedo. Continuo então a roer as unhas que tem cheiro de lágrima antiga, discuto com o relógio e acabo sendo desafiada, adormeço com a idéia de que poderei estar no seu sono e acordo tentando decifrar se sua cota de sorrisos matinais já foi atingida. E você não vê. Não entende e não quer digerir. Se afasta. Fecha os olhos. Tranca o nariz. Amarra as mãos. Engole a língua. Permanece negando e troca qualquer reação por umas migalhas de paciência, ainda assim por um segundo - eu sei - resolve lembrar que eu estou aqui e sou capaz de todas as coisas e não suporta, eu peso, cinco toneladas de solidão e as sobrancelhas que estão sempre desalinhadas, seu preço eu pago com meu tempo e meu desejo que emudece na sua voz, inteiramente.

4 comentários:

Anônimo disse...

Nossa, seus textos são tudo que eu sinto também. Gostei bastante, bastante mesmo :)

Patrícia Colmenero disse...

dor cotidiana
intenso
"eu peso, cinco toneladas de solidão " essa foi a melhor frase na minha opinião.
voltei com o blog.
beijo

Anônimo disse...

Gosto de Garbage, sim sim! E aquela música me faz pensar em muita coisa..

Anônimo disse...

e a gente muda muda muda, mas as vezes parece que estamos mudando em círculos, pois há coisas que voltam como se só tivessem dado um "voltinha" :\